Profissionais de saúde e a epidemia do vírus Ebola


A Organização Mundial de Saúde divulgou no dia 08 de outubro de 2014, que, na África, cerca de 416 (4,9% do total de contaminados) profissionais de saúde foram contaminados pelo vírus Ebola, dos quais, 233 (5,8% do total) morreram. Fato de extrema gravidade porque os elementos humanos essenciais ao controle da epidemia estão deixando de ser parte da solução e, de forma intensa e rápida, estão passando a ser importante componente do problema.


WHO: EBOLA RESPONSE ROADMAP UPDATE


Uma enfermeira na Espanha e uma nos Estados Unidos se contaminaram com o vírus Ebola cuidando de pacientes em seus próprios países. São os primeiros casos de contaminação pelo Ebola fora da África e elevam para 418 o numero de profissionais de saúde conaminados na presente epidemia. Embora sejam somente dois casos, não pode passar desapercebido que em ambos, ou seja, 100% dos casos de Ebola tratados em países desenvolvidos, houve contaminação de profissional de saúde. Estes dados reforçam a ideia de que uma das prioridades para o controle da epidemia de Ebola é somente utilizar no atendimento, aos infectados e nos casos suspeitos, pessoal adequadamente treinado para operar em ambientes de nível 4 de Biossegurança. Se na África as precárias condições da assistência de saúde, a pobeza e hábitos culturais são meios adicionais que facilitam a contaminação e a propagação do vírus, em outros continentes, e principalmente nos países com maiores recursos, os profissionais de saúde e o pessoal auxiliar envolvidos na assitência aos infectados, pode-se prever que estarão entre as maiores vítimas e os maiores propagadores da doença. Apos a conirmação da contaminação de uma enfermeira no Texas, o CDC anunciou que iria realizar uma conferência de treinamento em todo o país para milhares de trabalhadores de saúde, para garantir que eles estejam totalmente preparados para tratar um paciente com Ebola. Segundo aquele centro “os cuidados aos pacientes com Ebola podem ser feitos, desde que com segurança, mas é difícil fazê-los com segurança...." Dr. Thomas R. Frieden, diretor do CDC, disse em recente entrevista à imprensa que "mesmo um único inocente e inadvertido deslize pode resultar em contaminação." Não é qualquer médico ou qualquer enfermeiro que está habilitado a operar no nível 4 de Biossegurança. Basicamente, somente o pessoal que milita em área cirúrgica, serviços de infectologia e em laboratório de alto nível de biossegurança possui o necessário condicionamento para seguir corretamente os rígidos protocolos exigidos. Outros profissionais de saúde não necessariamente possuem este condicionamento, e somente corretamente treinados poderão ser habilitados. Se profissionais de saúde não estão necessáriamente habilitados, o que dizer então do pessoal auxiliar encarregado da limpeza, segurança, transporte de macas etc.? Não é fácil ou rápido o aprendizado de como se portar em ambiente de elevado nível de Biossegurança, como uma sala de cirurgia, quarto de isolamento de paciente infectado ou em área de preparo ou descarte de material biologicamente contaminado. Todo cirurgião sabe o potencial desastre que representa a presença de uma pessoa leiga em um ambente cirúrgico, apesar de qualquer orientação que se dê momentos antes de sua entrada neste ambiente controlado. Esta habilitação exige treinamento intenso com práticas repetitivas até a correta assimilação da carga doutrinária e a consequente mudança de comportamento, o que exige tempo. Além de regras rígidas de posturas, procedimentos, conhecimento do material de proteção, coletivo e individual, o perfeito domínio espacial do corpo é requisito essencial, e é a parte mais difícil deste aprendizado. Aprender a controlar o corpo a ponto de identificar e ponderar as possíveis consequências antes de executar até o mais simples e limitado gesto, é processo lento que não se ultrapassa de um dia para o outro. Eliminar hábitos de toda a vida, tiques ou outros movimentos involuntários que executamos quase que por “ato reflexo”, é , também, tarefa complexa. A prosaica “coçadinha” mo nariz, olhos ou rosto e a “ajeitadinha” no cabelo que executamos sem perceber, neste caso pode ser fatal. É preciso exercitar, e muito, para que tais condicionamentos sejam excluídos. Assim, não basta disponibilizar equipamentos de proteção individual ou dar “cursinhos intensivos” de como usá-los. É fundamental, também que o treinamento atinja um número considerável de pessoas e não só médicos e enfermeiros, mas todos os profissionais envolvidos na assistência a um possível caso de Ebola. O teste do primeiro caso suspeito de Ebola do Brasil deu negativo. Este fato, contudo não permite que se durma despreocupado. A ameaça persiste e as vulnerabilidades devem ser prontamente corrigidas. Como não temos no Brasil o número suficiente de equipes de saúde e auxiliares corretamente treinados para lidar com ameaças biológicas de nível 4 de Biossegurança, devemos aproveitar este tempo adicional que ganhamos e, de acordo as lições aprendidas nos casos da Espanha e dos Estados Unidos, intensificar o treinamento dessas equipes. O CDC está oferecendo cursos para treinamento de equipes que irão lidar com o Ebola e está aberto a qualquer país que se interesse. Fica aí a sugestão para as autoridades brasileiras.


Carlos Edson Matins da Silva Contra-Almirante (RM1-Md) ABMM-Seção de Medicina de Combate